Coluna do Artilheiro
02/09/2008 11:21:10
A voz da experiência: Gilson Lira está com a torcida não adianta desmanchar tudo e voltar a zero. Leia com atenção.
COLUNA DO ARTILHEIRO
ESTOU COM A TORCIDA, NEM TUDO ESTÁ ERRADO
Nem oito e nem oitenta. A diretoria do União fez uma reunião na noite de segunda-feira para tomar algumas medidas com referência ao clube. Espero que no meio de tantas cabeças haja alguma com lucidez suficiente para não permitir que se desfaça todo trabalho montado no final do ano passado para começar tudo do zero. Aliás, esse foi o grande pecado do União em tempos passados. A cada campeonato que chegava ao fim, mandava aquela “barca” de jogadores embora e mandava vir outra no ano seguinte. Sempre tive essa medida como um atestado de burrice daqueles que comandavam, pois era necessário que se mantivesse uma base para montar o próximo time. E esse erro se arrastou durante décadas, sem que alguém desse ouvidos aos anseios de vários colegas da imprensa que apontavam tal procedimento como um erro grave das diretorias. Tenho a nossa época como prova de que a base é importante. Quando cheguei ao União em 1.975 ao lado de Ruiter e meu irmão Jefferson Lira, vindos do Operário, encontramos um time de garotos muito ansiosos por colher resultados, mas que não tinham experiência para enfrentar os grandes times da capital e de Campo Grande. O grupo que ficou em último em 74 foi mantido, mas reforçado com um craque (o melhor que já passou no nosso futebol) que liderava no meio de campo com lançamentos precisos, tinha um toque de bola refinado e muita visão na distribuição das jogadas, trouxe um artilheiro nato, frio na finalização e acostumado a enfrentar as defesas duras do nosso futebol e um lateral esquerdo de excelente marcação e muito bom no apoio. Além disso, já haviam conquistado 7 títulos no Operário de Várzea Grande: Estadual, duas copas Cuiabá, Centro-Oeste, Torneio Agripino Bonilha, Torneio Semana da Pátria e Torneio Ranulpho Paes de Barros. Junte-se a tudo isso a vontade de vencer dos meninos (Pelezinho, Dedeus, Luizinho, Pindu, Mário Sérgio, Maurinho, Zé Cachorro, Acyr, Joãozinho) e a nossa disposição de mostrar que a gente jogava em qualquer time, mesmo no “lanterna” do ano anterior. E saímos do último para o primeiro lugar em 75, infelizmente não tínhamos na Federação a força de hoje e tivemos que engolir o primeiro vice no tapetão. Mas convidados para disputar o Torneio Incentivo ao lado dos grandes e mais o Flamengo com Cantarelli, Tita, Luxemburgo, Merica, Dendê (contratados junto ao Bahia) e outros conseguimos de maneira invicta o título (o 1º do União como clube profissional). E a diretoria com Lamartine e Adelson à frente mantiveram o mesmo plantel com alguns reforços e o time correspondeu novamente conseguindo o Bi do Torneio Incentivo que valeu um prêmio de 50 mil cruzeiros e ainda conquistou a Copa Cuiabá ao lado do Mixto logo no início do ano e posteriormente venceu todos os jogos do segundo turno do campeonato Mato-grossense deste ano. Apesar de ser um time pobre, sem nenhuma estrutura e com apenas um jogo de camisa, conseguiu renovar o nosso contrato no fim de 75 para o ano de 76 cobrindo as propostas de vários clubes como Dom Bosco, Comercial e Operário de Campo Grande, além do Operário de Várzea Grande que nos queria de volta, pagando de luvas um Fuscão Zero Km ano 76 na Volkslândia adquirido com dinheiro de doação da torcida na antiga rádio Branife. Com esse esforço o time foi mantido e correspondeu. Infelizmente nos anos que se seguiram, principalmente nos anos 80 deixaram essa prática de lado. Ao final de cada campeonato todos eram dispensados, e no ano seguinte começava o corre-corre para a montagem de um novo time. Resultado até hoje o União tornou-se um time sem identidade, os contratos de apenas 3 meses não permitiam que os atletas se apegassem ao clube e sem uma política que criasse as divisões de base o time ficou a mercê de muitos mercenários que passaram por aqui unicamente pelo dinheiro e sem nenhum compromisso que não a frieza do contrato. Graças a Deus que também vieram atletas que se identificaram com a cidade e mais ainda com a torcida colorada e fincaram raízes por aqui como o craque Custódio com passagens pelo Flamengo e também no futebol europeu, Paulo Taborda artilheiro de vários clubes do sul do país, Alencar que veio do futebol goiano e teve uma bela passagem pelo Botafogo do Rio, Mário que também jogou no Botafogo, Valdeir que esteve no Guarani, Flamengo, Figueirense, Matias que hoje é empresário na cidade, Mário Sérgio do interior paulista e tantos outros que moram em Rondonópolis e nos enchem de orgulho por estarem aqui no nosso convívio. Na verdade o que eu anseio é ver alguns desses nomes envolvidos numa comissão técnica ou em cargos relacionados com o futebol emprestando a experiência que acumularam no nosso futebol e de outros estados. Infelizmente alguém me disse que tempos atrás quando foram citados alguns nomes de pessoas ligadas à história do União, um dirigente desses atuais disse que “eles já tiveram a chance deles”, agora é a nossa vez. Lembro que o Alencar foi técnico num desses anos e não decepcionou fez uma campanha maravilhosa, mas infelizmente ninguém consegue dirigir um time com 3 meses de salários atrasados, principalmente se você também jogou e sabe na carne o que é enfrentar uma situação dessas. Assim também ocorreu com Zé Carlos Martins (Zé Cachorro), Pindu (sempre que foi chamado colaborou mas não tinha estrutura de apoio ao seu trabalho), e também me coloco nessa situação, porque nas vezes que fui chamado para ajudar, nunca neguei, mas só podia atender depois das 16 horas quando saia da escola onde lecionava para treinar o time. E mesmo assim com passagens nos anos de 79 (jogador e técnico), 86, 88, 91 e 2.003 (por dois jogos no lugar de Carbone) num total de 44 jogos só perdi 3 vezes e as três fora de Rondonópolis. E para quem não sabe sou o único técnico na história do União que nunca perdeu no Luthero Lopes nem no antigo nem nesse novo. Quando dirigi o Vila Aurora também nunca perdi aqui dentro, inclusive no Unigrão venci por 1x0 (gol de Maurão) e empatei em 1x1 gol de Devone) e pelo lado do União dirigi na vitória de 3x1 em 2.003 com gols de Diogo, Cesinha e Newtinho que é a última vitória do União sobre o Vila em jogos do Campeonato Estadual (depois dessa o União só venceu na Copa do Governador). Quero aproveitar e lembrar que o Carlos Rufino também em várias oportunidades treinou o União, mas também naquela época sem as condições que se tem nos dias de hoje. Tanto ele provou sua competência que comandou o Operário mesmo sem essas condições todas e foi campeão Mato-grossense.
Então dizer que todos nós já tivemos nossas oportunidades é um erro tão grande quanto renovar todos os anos chamando técnicos de vários recantos desse país que nunca militaram no nosso futebol e chegam trazendo dezenas de jogadores que não se adaptam ao nosso clima e ainda menosprezam os que atuam aqui em nosso Estado. E ironicamente os campeões de todos os anos são os clubes que mais valorizam os jogadores locais, exemplificando com o Bi do Cuiabá, Operário, Cacerense e o Vila Aurora com jogadores já adaptados ao nosso futebol.
Assim sendo, deixo aqui essa exposição de motivos, justificando porque é melhor manter uma base do time atual do União e encaixar algumas peças necessárias, do que mandar todo mundo embora e tentar começar tudo de novo. Para os que dizem que o União vive morrendo na praia, eu diria que é melhor morrer na praia (sendo vice-campeão, batendo na trave, quase chegando lá) do que morrer no meio do mar sem nem conseguir ver a praia.











