Coluna do Artilheiro

07/07/2008 10:44:43

Na coluna do artilheiro, Gilson Lira destaca: Craque já nasce feito, mas sempre corrige defeito.

 COLUNA DO ARTILHEIRO 

O CRAQUE JÁ NASCE FEITO, MAS VIVE CORRIGINDO ALGUM DEFEITO       

Quando a pessoa conhece as suas limitações a forma mais inteligente de obter o máximo de si mesmo é saber respeitá-las e não tentar fazer o que não é (numa partida querer jogar bonito quando não passa de um bom marcador). No futebol isso é o que mais acontece e aqui em Mato Grosso tem muito atleta pensando que é craque (e até acredita nisso), mas está longe de ser. Quero então contar a minha história para que sirva de exemplo e ajude a conseguir o melhor do pouco que se tem.      

Sabendo que não era nenhum craque, procurei desde cedo (por conselho do meu pai que foi jogador profissional) trabalhar no domínio da bola, aperfeiçoar o chute com a perna esquerda (eu sou destro), treinar exaustivamente o cabeceio (inclusive com uma câmara de ar cheia de areia pendurada no pescoço e saltitar no banco de areia após cada treinamento físico), estar atento às falhas das defesas acreditando que todo zagueiro fura (mesmo os craques) e que todo goleiro bate-roupa, não ficar afastado da grande área, pois é ali que as coisas se definem (80% dos gols).      

Apesar de limitado tecnicamente consegui marcar 684 gols em 20 anos de carreira, sendo 285 aqui em Mato Grosso. Tive a felicidade de jogar ao lado de muitos craques que facilitaram a minha vida na difícil tarefa de marcar gols e para não me alongar muito gostaria (se eles me permitem) citar o Alberi no ABC de Natal onde fui Bi-campeão Estadual (1.970/1.971) e também campeão da Taça Cidade de Natal e de Bife no Operário de Várzea Grande onde ganhamos 7 títulos. Nossas tabelinhas eram incríveis fazendo relembrar aos saudosistas aquelas de Pelé/Coutinho e originaram muitos gols. Mas era preciso um gênio dos lançamentos como Ruiter, César (Diabo Loiro), Pastoril, Chundi e tantos outros.      

Uma vez, após a partida Operário 1x3 União no Dutrinha (02/07/75) quando Bife marcou primeiro para o Operário e eu marquei os 3 do União, na hora da confraternização no meio do gramado o Bife me disse: “É mano, você é f..., assim vai ser difícil alcançá-lo na artilharia do campeonato”. Respondi-lhe então: “A nossa diferença é que enquanto você faz um gol de placa, eu faço três de canela”. O artilheiro no final não é quem faz o gol mais bonito, mas aquele que faz o maior número de gols. Ele fez (segundo me disse) 274 gols em MT e eu creio (porque presenciei muitos gols ao lado dele) que 200 foram de placa, pois era gênio, um verdadeiro craque, estando para Mato Grosso como Pelé está para o Brasil (na minha concepção). Eu consegui fazer 285 aqui no Estado e tenho certeza que apenas alguns foram de placa, pelo menos os que ficaram gravados na já desgastada memória foram: De bicicleta contra o excelente Mão-de-Onça no Dom Bosco em pleno Verdão; um contra o Operário no Dutrinha de três dedos; um contra o Mixto de sem-pulo no Verdão em cruzamento de Índio. Só consigo lembrar desses como gol-arte (creio que tem outros que o torcedor considera como placa), o resto foram gols comuns (rebote de goleiros, furada de zagueiros, outros de puro oportunismo e muitos de cabeça que era minha especialidade). O importante é que serviram para contribuir nos 7 títulos conquistados no Operário (Estadual, Bi da Copa Cuiabá, Centro-Oeste Brasileiro, Agripino Bonilha, Ranulpho Paes de Barros, Semana da Pátria). Com a camisa do União esses gols serviram para conquistar os 3 únicos títulos de sua história: Tri-campeão Invicto do Torneio Incentivo (CBF) em 75, 76 e 79. Além de uma Copa Cuiabá que embora tenha terminado em igual número de pontos com o Mixto, este ficou com o título no saldo de gols em 1.975. Pelo Comercial de Campo Grande contribuíram para três títulos: Torneio Incentivo (77), Torneio Marcelo Miranda (77) e Taça Campo Grande (78). Foram 13 títulos em apenas 7 anos. O que mais poderia desejar?

 

       Falei tudo isso, citando-me como exemplo para dizer que eu tinha consciência dos meus limites. Aperfeiçoei minhas virtudes e procurei corrigir os meus defeitos e contei com a ajuda de muitas pessoas (companheiros de clubes, técnicos e meu pai) para conseguir êxito por onde passei. Poderia ter sido apenas um trombador vestindo a camisa 9, mas consegui melhor do que isso. Queria ser craque como Ruiter, Bife, Pastoril, Adilson, Bargas, Chundi...mas consegui “momentos de craque” respirando o mesmo ar que eles, vivendo essa história com eles, recebendo os abraços e aplausos deles e sendo digno da admiração de todos eles. Transformei gols de canela e até de bumbum (fiz um contra o Operário no Verdão) em títulos que fizeram à alegria de muitos. Meu pai me disse após um jogo no campo do Esperança em Nova Friburgo (anos 60) que ficou com vergonha do gol que eu fiz porque foi de bico e isso só devia valer se fosse no futebol de salão. Mas quando acabou o jogo e fomos para o carro ele teve que esperar mais de meia hora enquanto eu dava autógrafos para os torcedores apaixonados só por causa daquele gol de bico. E como valeu!!!

gilsonlira@terra.com.br  

www.gilsonlirapoesias.com